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Você sabe o que coloca no seu prato? Sabe MESMO?

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Estou passando mal desde ontem, literalmente. Nem comi a tal da carne fraca mas não consigo engolir que políticos aliados a corporações corruptas estejam garantindo o próprio banquete importado às custas da vida dos cidadãos médios desse Brasil.

Para quem não sabe do que estou falando, ontem (17/03) a Operação “Carne Fraca” da Polícia Federal divulgou que grandes frigoríficos do país vendiam carne vencida, com aditivos cancerígenos e outras misturas inadequadas tanto no mercado nacional quanto no exterior. Diretores e donos dessas empresas estariam envolvidos diretamente nas fraudes e contavam com a cooperação de servidores públicos do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, que envolviam transações de doações para campanhas políticas. Depois dos escândalos na construção civil, a corrupção chegou às enormes multinacionais alimentícias.

Isso mesmo, inadmissível. Além de quererem acabar com a aposentadoria dos trabalhadores que mais precisam dela e cortar a verba do SUS, diminuir os remédios distribuídos gratuitamente, aumentar as filas e os pacientes amontoados nos corredores, esses políticos ainda conseguem descançar a cabeça no travesseiro de penas de ganso com fronha de trocentos fios egípcios sabendo que tem gente comendo carne estragada maquiada com produtos cancerígenos.

Aliás, o que será que Alex Atala e Jamie Oliver têm a dizer sobre isso? Será que eles vão ao menos dar alguma satisfação para o seu público? Infelizmente eu acho que não.

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Mas sabe por que não dá para aceitar um escândalo desses? Porque mesmo que fosse possível adaptar a nossa rotina atual e viver sem nada de carne processada (aquela que já chega embalada e lacrada ao supermercado), de frango com papelão, de embutidos feitos com carne da cabeça do porco e todos os demais absurdos, a gente acbaria caindo em outro problema seriíssimo que são os agrotóxicos.

Mais uma vez, nossos digníssimos políticos negociam troca de vantagens com grandes indústrias do setor e quem paga é o povo: somos o país com as leis mais brandas do mundo no que diz respeito ao uso de venenos no cultivo de frutas, legumes e verduras que vêm para a nossa mesa, causando graves doenças. No Brasil, o uso de agrotóxicos atinge 70% dos alimentos e mais da metade das substâncias liberadas aqui é proibida em países da União Europeia e nos EUA.

Não bastasse isso, tem também os transgênicos, que passeiam pelas prateleiras dos supermercados sem que a gente ao menos perceba. E vira e mexe nossos representantes no congresso e no senado apresentam propostas para desobrigar a identificação clara e em destaque no rótulo de produtos que utilizam ingredientes transgênicos. Qual será o interesse deles em favorecer as grandes corporações multinacionais que controlam a alimentação no mundo?

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Aí você me diz: faça a sua escolha e prefira os orgânicos, então! Mas quem é que me garante que não existe um grande acordo de interesses para que alimentos cheios de contaminantes químicos também sejam certificados como orgânicos? Você bota a mão no fogo pela responsabilidade de auditores que podem ganhar “agradinhos” por fora a ponto de permitir que gente como eles consumam produtos inadequados para liberação? Eu definitivamente não.

Isso tudo é muito sério, gente! Não me desce ter que ficar na mão de pessoas desonestas e de grandes organizações que só visam as vantagens próprias em detrimento da saúde de outras pessoas, de VIDAS humanas. Eu sinceramente perco a fé na humanidade ao perceber até onde a ganância é capaz de chegar.

Eu e uns outros poucos temos alguma informação para, quem sabe, tentar escapar dessa porcariada toda. Felizmente tenho condições de, no meu dia a dia, evitar produtos superprocessados, não comprar tantos “alimentos” cheios de aditivos e escolher orgânicos de pequenos produtores locais. E nem ligo muito para carne mesmo. Ou seja, não consumir esses produtos é uma opção para mim. Mas quantos outros não têm opções?

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Num país em que a maior parte da população se mata de trabalhar para conseguir botar carne (ou uma salsicha que seja) na mesa, em que o prato sem “mistura” é considerado incompleto, como é que a gente pode tentar convencer uma família a trocar o steak de frango (processado com papelão?) que custa R$ 0,36 cada por uma porção de abóbora (que custa R$ 0,25 o meio quilo) ou um tanto de brócolis (que é muito mais caro!) para acompanhar o arroz com feijão?

É uma questão cultural tão enraizada no inconsciente coletivo quanto chegar em casa à noite, ligar a TV na novela das oito e assistir aos comerciais com celebridades recomendando a carne da Friboi, o presunto da Sadia, o frango da Seara e a salsicha da Perdigão. E precisamos, sim, dar nomes aos bois:

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Então você me pergunta: tem como resistir a essa pressão toda pelo consumo desse tipo de produto de empresas que, no fim do dia, precisam vender e lucrar o máximo possível e não medem esforços para isso? Tem sim, mas a gente que tem alguma voz precisa falar, se posicionar, difundir as informações que a grande imprensa não espalha para não correr o risco de perder importantes anunciantes.

A gente, que tem algum conhecimento sobre alimentação mais saudável, precisa compartilhar dicas de como transformar o trabalhão de cuidar das refeições da família em uma tarefa agradável e compartilhada por todos para que ninguém fique sobrecarregado. É nossa responsabilidade divulgar receitas de comida de verdade que sejam rápidas e práticas para que todo mundo aprenda que é possível chegar em casa cansado do trabalho e preparar o jantar em 15 ou 20 minutinhos — e que isso é gostoso e fácil!

Eu fico particularmente desiludida com a realidade que estamos vivendo mas espero do fundo do coração que as coisas mudem. Espero também, humildemente, estar conseguindo de alguma forma contribuir para que mais pessoas sejam capazes de fazer escolhas mais conscientes.

Por aqui, continuo fazendo o que posso, tentando inspirar as pessoas a cozinharem mais em casa e buscando descobrir opções de comidinhas rápidas para publicar. Aliás, aproveito para reforçar que meus valores e minha opinião não estão à venda – e é exatamente por isso que durante todo esse tempo de blog eu aceitei divulgar e fiz publieditoriais sobre produtos e empresas em que realmente confio e que indicaria independente de pagamento ou brinde. Porque, no final, é a minha credibilidade que está em jogo e isso realmente nenhuma fortuna é capaz de recuperar, uma vez perdida. Não é mesmo?

Em um mundo que consome leite contaminado com soda cáustica, pão feito com polímeros usados em chinelos de borracha, salmão com corante laranja, bolachas e salgadinhos infantis ricos em gordura trans, e tantos aditivos como conservantes, adocantes, acidulantes, corantes, aromatizantes, estabilizantes e demais “–antes”, eu fico aqui sinceramente torcendo para que não haja motivos escondidos para mais escândalos como este.

E, no fim, até meu amado hot dog vai ser cada vez mais raro por aqui, ficando só para quando eu puder comprar uma salsicha artesanal e verdadeiramente confiável.

 


O que podemos fazer para mudar esta realidade?

_ Incentive os pequenos produtores orgânicos da sua região, valorizando o trabalho dos pequenos empreendedores que distribuem esses alimentos em feiras ou em cestas de legumes por assinatura. Em São Paulo, é possível comprar alimentos orgânicos a preço de custo no Instituto Chão (clique AQUI para ler mais sobre isso). Em outros lugares do país, clique AQUI para encontrar as feiras de produtos orgânicos mais próximas de você.

_ Diminua o consumo de carnes processadas, optando por carne fresca, moída na hora e de produtores certificados. Como o acesso é mais difícil, aproveite para experimentar outros sabores e adotar uma alimentação mais variada, com alimentos diversificados. Veja as 75 receitas vegetarianas para você nem sentir falta de carne, as 35 receitas deliciosas para a #SegundaSemCarne e as 35 receitas veganas fáceis e deliciosas.

_ Entenda que a redução do consumo de carne não tem nada a ver com virar vegetariano, mas com incluir uma variedade maior de alimentos em sua alimentação. Ao mesmo tempo, você deixa de apoiar a indústria mais cruel de toda a cadeia industrial alimentícia, que é também a que mais impacta na poluição das águas, na destruição da camada de Ozônio, na degradação os solos, além de sustentar as monoculturas à base de agroquímicos e transgênicos para a produção de grãos que alimentam os animais que serão abatidos.

_ Aprenda a ler rótulos de produtos alimentícios e elimine ao máximo os produtos ultraprocessados, que possuem aditivos químicos com nomes estranhos em sua composição.

_ Substitua o máximo possível esses alimentos por versões caseiras, como por exemplo o Caldo de legumes, carne ou galinha caseiros (feito com cascas e talos de vegetais ou rebarbas e ossos que seriam descartados), o Molho de tomate caseiro, o Iogurte natural caseiro, o Requeijão caseiro sem amido, os Nuggets caseiros de frango etc.

_ Conheça e consulte sempre que possível o Guia Alimentar Brasileiro e tenha-o como orientador de sua alimentação e da sua família. Divulgue-o, converse sobre suas indicações, compartilhe dicas e práticas que você adotou.

_ Questione as grandes corporações e exija esclarecimentos sobre o que você consome. Use o Serviço de Atendimento ao Consumidor para questionar os ingredientes que constam nos rótulos, esteja sempre atento às mudanças nas composições dos produtos. Se você paga por eles, tem todo o direito de obter informações claras e compreensíveis.


 

Fotos: pixabay.com

É aquariana, curiosa, jornalista e tem uma infinidade de interesses — entre eles, a culinária. Não é chef (nem pretende ser) mas a necessidade de morar sozinha a fez experimentar a alquimia das panelas e descobrir que o fogão não é um bicho de quatro bocas.

6 Comentários

  • Maísa

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    Parabéns pelo excelente texto, Luciana! Concordo plenamente com seu ponto de vista. Por mais comida de verdade! Melhor ainda se for fácil, rápida e apetitosa 😉

  • Luciana Carpinelli

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    Obrigada, Maísa!
    Seguimos em frente divulgando e compartilhando comida de verdade.
    Beijo e volte sempre 🙂

  • Daniela Sabadin Tonini

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    Lu, Excelente! Compartilho da mesma opinião. Tenho esperança nas mudanças, principalmente culturais, com nossos pequenos. Meu filhote de um ano e oito meses está sendo educado e alimentado de uma forma totalmente diferente da que eu recebi com a idade dele. É um trabalho de formiguinha, mas acredito que se cada um fizer a sua parte, o todo sai ganhando. Um beijo!

  • Luciana Carpinelli

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    Obrigada, Dani!
    A gente vai fazendo a nossa parte e torcendo para que os outros também percebam os caminhos, as alternativas.
    De pouquinho em pouquinho vamos mudando o mundo.
    Grande beijo e volte sempre 🙂

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