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Conheça mais o Brasil: Belém do Pará

Até o mês passado eu já tinha ido a mais de 15 países, tendo inclusive passado uma temporada na Alemanha, mas não conhecia o Norte do meu próprio país. Eu enchia a boca para dizer que “minha culinária” tinha influência de regiões na Itália, no México e até no Japão, mas nunca tinha provado o tacacá nem sequer ouvido falar de maniçoba ou taperebá, tão comuns em uma região muito mais próxima de mim.

Do Pará a gente aqui em São Paulo conhece bem a Fafá, a castanha e a banda Calypso. Alguns já viram alguma coisa sobre o Círio de Nazaré, sobre a erva jambu que faz a boca “tremer” e sobre o pato no tucupi (apesar de não ter a mínima ideia do que venha a ser o tucupi). Mais recentemente, conhecemos a Gaby Amarantos. No geral, pouca coisa mais que isso, a menos que tenha algum amigo ou conhecido que venha de lá. Aliás, muita gente ainda acha que Belém fica no Nordeste e que tem uma costa cheia de praias.

A gente que se acha chique porque toma brunch, almoça no fast food e faz happy hour para fugir do rush ou que acha que tapioca e açaí são comidas maromba-fit, inventadas pelos blogueiros da moda. A gente que acha que o carimbó e o tecnobrega são, claro, bregas demais para serem ouvidos por nós. E que não se toca de que só consome os frutos da Amazônia quando compra produtos “premium” da Natura ou da L’Occitane ou topa com um prato de chef com formigas paraenses no cardápio “gourmet”.

Na verdade, a gente sabe tão pouco da nossa própria terra! Arrisco dizer que é por isso que a gente valoriza tanto o que vem de fora. Em vez de ter orgulho da nossa cultura e da nossa história, acabamos deixando para trás conhecimentos e costumes dos nossos ancestrais daqui, perdendo informações importantes e hábitos muito mais saudáveis e adequados ao nosso clima e nossa natureza. Afinal, não faz sentido um Papai Noel se vestir com roupas de veludo e pele em pleno verão tropical, nem comer peru assado numa noite quente de 30ºC. Ou você acha que faz?

Por que demorei tanto para ir até o Pará eu não sei dizer e não me orgulho de contar que só cheguei lá por uma sequência de imprevistos e situações não planejadas. Mas que bom que eu finalmente fui! E agora já quero voltar e conhecer muito mais do que consegui nesses poucos dias.

Belém é uma cidade riquíssima. Talvez não tão rica em dinheiro como na época de ouro da borracha, quando viveu sua “Belle Époque” e era chamada de “a Paris tropical” ou “Paris n’América”. Mas certamente abundante em relação à natureza, à cultura, à gastronomia e à brasilidade. Um pedaço da Amazônia que ainda preserva fauna e flora diversas, utilizadas sabiamente para alimentar e suportar a vida dos seus habitantes. Uma verdadeira gigante pela própria natureza!

E uma de suas maiores riquezas, sem dúvida alguma, é a cultura alimentar que vem principalmente dos índios Tupinambás e Pacajás, e que preserva até hoje saberes seculares como por exemplo as técnicas de manipulação e aproveitamento integral de uma planta naturalmente venenosa como a mandioca: as raízes viram sumo (transformado em tucupi), goma (usada na tapioca), polvilho, farinhas e féculas; as folhas viram maniva (utilizada na preparação da maniçoba); e finalmente os caules servem para o replante e preservação da espécie.

Comer o vinho do açaí (a polpa mais pura e fresca da fruta) com peixe, uma das refeições mais tradicionais na região, não nasceu de um profundo estudo de sabores e nutrientes para criar um prato completo. Era a comida que tinha, aquilo que a terra dava para que os nativos não morressem de fome: os açaizeiros, abundantes nos “quintais” das casas de madeira, e os peixes vindos da baía do rio Guajará. Assim como a pupunha (as frutinhas, e não o palmito), o cacau e as tantas demais frutas típicas consumidas amplamente pela população.

Aliás, a comida indígena paraense é considerada a única verdadeiramente brasileira, segundo o filósofo José Arthur Gianotti. Ela combina os sabores da terra com as influências africanas, portuguesas, alemãs, japonesas, libanesas, sírias, judias, inglesas, barbadianas, espanholas, francesas e italianas. Por isso é tão complexa!

Apesar disso, é muito difícil encontrá-la em qualquer outra parte do país. A gente recebe aqui no Sudeste os kiwis amarelos que chegam excelentes para consumo diretamente da Nova Zelândia, mas não consegue comprar o açaí fresco, que nasce a bem menos que a metade da distância. A gente pode comer Pad Thai, um prato tailandês, em pelo menos 25 restaurantes diferentes em São Paulo, mas é difícil encontrar um que sirva o tacacá (esse caldo de tucupi com camarão, goma de tapioca e jambu da foto).

E parece que os gringos já descobriram essa riqueza de sabores e tradições nortistas ou amazônidas (relacionadas à região amazônica) bem antes que a maior parte de nós brasileiros. É até bonito de ver os estrangeiros se virando para falar um português enrolado nas barraquinhas do Ver-o-Peso, um dos mercados públicos mais antigos do país, eleito uma das 7 Maravilhas do Brasil (e eu nem sei dizer quais são as outras 6!).

Outro exemplo é o restaurante Remanso do Bosque, que serve um cardápio baseado em ingredientes 100% da Amazônia e foi classificado como um dos 50 melhores restaurantes da América Latina por três anos. Ele é comandado por Thiago Castanho, um dos chefs mais inovadores do Brasil segundo o jornal The New York Times e praticamente desconhecido por aqui.

Infelizmente a rica cultura paraense é uma nobre desconhecida do brasileiro médio. E, se eu fosse você, adiaria aquela viagem para a Europa e ia antes aproveitar as comidas, claro, mas também a história, a cultura, a arte, a alegria e a hospitalidade paraenses. Sua bagagem vai voltar cheia de delícias, e muito mais carregada de conhecimento sobre a sua própria origem.

Conheça mais o Brasil! Conheça mais Belém do Pará!

Vou falar mais sobre esta viagem aqui no blog, mas se você quiser acompanhar minhas aventuras gastronômicas em Belém, dê uma olhada na #CP2ou1emBelém no Instagram.

É aquariana, curiosa, jornalista e tem uma infinidade de interesses — entre eles, a culinária. Não é chef (nem pretende ser) mas a necessidade de morar sozinha a fez experimentar a alquimia das panelas e descobrir que o fogão não é um bicho de quatro bocas.

2 Comentários

  • Danielle de Sant’Anna

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    Lu, que post MARAVILHOSO. Fiquei arrepiada, emocionada, com água na boca e com vontade de passar as próximas férias no Pará! Hehe.
    Concordo totalmente que muitas vezes valorizamos mais o que vem de fora por não conhecer nosso próprio país. Eu conheço quatorze estados e quero aumentar essa lista (até porque me falta o Pará!!) É tanta diversidade que o aprendizado e as novidades são equivalentes a estar em outro continente. Rsrs. Amei o post pelo conteúdo incrível e pela forma perfeita como foi escrito. Quero mais! 🙂

  • Luciana Carpinelli

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    Danielle, fico feliz em ter plantado a sementinha da curiosidade pelo Pará em você! É esse o meu intuito em publicar este post. Quem sabe as pessoas se interessem um pouquinho mais? 🙂
    Um beijo e volte sempre!

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