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Lugar de mulher é onde ela quiser — até na cozinha!

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Não tem nada que me irrite mais do que alguém que prova algum prato preparado por mim e repete aquela famosa frase: “Que delícia, já pode casar!”

Sinto revelar (aliás, não sinto não!) que, se o objetivo era elogiar o meu talento culinário, ele não foi alcançado. Pelo contrário, confesso que me incomoda profundamente quando alguém pensa que aprendi a cozinhar única e exclusivamente para arranjar um marido.

Por outro lado, já ouvi algumas vezes que gostar de cozinhar não combina comigo, uma pessoa tão moderna, cabeça aberta, independente. Que isso é coisa de mulherzinha, submissa! Gente, pelamordedeus, né? Já contei aqui por que eu cozinho e o que me move, mas este não é o foco desta conversa.

Hoje vamos falar sobre esse conceito tão ultrapassado de que a mulher é a única responsável pelas tarefas domésticas e que desempenhá-las bem é um dos principais diferenciais para conquistar um bom marido.

Como é que em um mundo cada vez mais globalizado, com descobertas tecnológicas que revolucionaram nossa vida e com tanto avanço relacionado ao comportamento humano, essa ideia que é anterior à época da minha bisavó ainda continua tão viva e presente em nossa vida?

O que mais me intriga é que, depois dessa onda gourmet que dominou o mundo, o ato de cozinhar ganhou ares de glamour — só que muito mais para os homens. Os chefs invadiram o consciente coletivo da grande massa recentemente mas dominam as cozinhas profissionais há décadas, sendo responsáveis pela criação de menus inovadores e reconhecidos no mundo todo. Enquanto isso, à maioria das mulheres cabe seu lugar cuidando do fogão de casa, preparando aquela comidinha caseira gostosa para nutrir a família. (Há exceções, sim, mas elas ainda são minoria e com muito menos destaque, vide o resultado do ano passado no Prêmio Michelin.)

Um conceito que eu gosto muito é o que a Rita Lobo vive repetindo: a responsabilidade pela alimentação deve ser de toda a família — afinal, todos comem. E, quando as tarefas de fazer as compras, pensar no cardápio da semana, preparar a comida, colocar a mesa, retirar a mesa, lavar as louças e limpar a cozinha são igualmente divididas, ninguém fica sobrecarregado. Sem contar que essas atividades, quando feitas em conjunto, ainda contribuem para uma convivência melhor e mais saudável. Tem como discordar?

Vamos então começar a propagar esta mudança de comportamento. Eu garanto que tudo vai melhorar — da sua alimentação ao relacionamento familiar.

 


O que você pode fazer para ajudar a mudar isso?

_ Não reproduza mais essa ideia de que mulher que cozinha bem já pode casar. E, mais que isso: quando ouvir esta frase, explique por quê não repeti-la mais.

_ Ensine os filhos meninos a contribuírem com as tarefas domésticas como arrumar a mesa, preparar receitas mais simples, retirar os pratos da mesa, lavar a louça etc. (e não apenas estas tarefas da casa!). E deixe bem claro que o papel deles não é “ajudar” a mãe, mas dividir as tarefas.

_ Ensine as meninas a cozinharem, sim (saber preparar a própria comida nos dá uma autonomia incrível!) — mas ensine também que elas não são obrigadas a cozinhar se não quiserem ou não gostarem. Afinal, elas podem ficar responsáveis por outras tarefas, certo?

_ Caso a divisão de tarefas não seja bem recebida na sua casa, comece a convidar seu namorado/noivo/marido a cozinhar com você. Se eles não gostarem ou não souberem preparar nada, podem começar descascando ou cortando os alimentos, mexendo as panelas, lavando a louça enquanto a comida fica pronta… um vinho ou um drink completam o clima e transformam a tarefa em um momento agradável em casal.

_ Conheça, consuma, valorize e compartilhe o trabalho das profissionais que trabalham na cozinha. Veja uma lista com as 10 mulheres que comandam a gastronomia brasileira.

_ Leia mais sobre o tema e converse sobre isso. Um bom começo pode ser esta matéria: Cozinha profissional é lugar de mulher?


 

Ah, e antes que eu me esqueça, mulher pode estar onde ela quiser — e esse lugar pode até ser na cozinha. Mas só se ELA quiser. 😉

É aquariana, curiosa, jornalista e tem uma infinidade de interesses — entre eles, a culinária. Não é chef (nem pretende ser) mas a necessidade de morar sozinha a fez experimentar a alquimia das panelas e descobrir que o fogão não é um bicho de quatro bocas.

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